Evento do Bhaktivedanta Institute

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Resumo da Apresentação

A Necessidade da Literatura que Alimenta a Alma

Evalda de A. S. Costa (Śrī Dāmodara Dasi)
Literatura · Educação · Humanização · Bhagavad-gītā

Resumo

Este trabalho propõe a ampliação do conceito de direito à literatura, formulado por Antonio Candido (2004), para incluir o direito ao acesso a literaturas de formação da interioridade, aqui denominadas como literaturas que alimentam a alma.

Parte-se da definição de literatura como toda criação de toque poético, ficcional ou dramático, associada a um critério funcional: sua capacidade humanizadora. Para Candido, a humanização envolve o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza e o cultivo do humor.

Neste projeto, entende-se por “alma”, nos termos dos estudos críticos literários, a integridade espiritual e a quota de humanidade — instância psíquica onde se dá a organização do pensamento, a expressão dos sentimentos e a percepção da complexidade do mundo. Assim, “alimentar a alma” significa atuar na formação dessa interioridade.

A hipótese central é que a Bhagavad-gītā — 700 versos que integram o Mahābhārata — cumpre exemplarmente esses critérios, configurando-se como literatura que promove a integridade espiritual.

Analisa-se a obra em sua dimensão histórico-épica: o diálogo entre Kṛṣṇa e Arjuna no campo de Kurukṣetra apresenta um colapso existencial e uma resposta ao problema situado. A bhakti-yoga opera justamente funções que Candido atribui à literatura: organização do pensamento, educação das emoções, maior aptidão para apreciar a beleza e compreensão mais profunda dos ciclos da vida e da interconexão entre todas as coisas.

Como todo épico, a Bhagavad-gītā constitui, nos termos da teoria dos gêneros, um mundo próprio e autônomo. Conforme Rosenfeld (1985), a compreensão do épico exige adesão à sua verossimilhança interna, independentemente do juízo externo sobre sua verdade ou falsidade histórica.

Portanto, a análise literária da Gītā prescinde da discussão sobre se o diálogo em Kurukṣetra ocorreu historicamente. Basta aceitá-lo tal como se apresenta — como história sagrada (itihāsa) que funda um cosmos moral — para que sua função humanizadora, nos termos de Candido, possa realizar-se.

Nesse sentido, Anatol Rosenfeld observa que o mundo épico possui um distanciamento próprio e deve ser compreendido a partir de suas próprias regras internas.

Bhagavad-gītā 9.2

rāja-vidyā rāja-guhyaṁ pavitram idam uttamam
pratyakṣāvagamaṁ dharmyaṁ su-sukhaṁ kartum avyayam

“Este conhecimento é o rei da educação, o mais secreto de todos os segredos. É o conhecimento mais puro e, como dá percepção direta do eu através da iluminação, é a perfeição da religião. Além disso, é eterno e sua execução é feita com alegria.”

No comentário a esse verso, A. C. Bhaktivedanta Swami explica que esse rāja-vidyā é a bhakti-yoga. A passagem permite um diálogo direto com Candido: trata-se de um conhecimento que humaniza porque é pratyakṣa — percepção direta, e não apenas teoria — e cuja prática é descrita como su-sukham, realizada com alegria.

Se Candido define como incompressível a literatura que garante a integridade espiritual, a Bhagavad-gītā apresenta-se, em sua própria autodefinição, como rāja-vidyā — o rei do conhecimento.

Conclui-se que defender a Gītā como direito universal não significa defender proselitismo religioso, mas, nos termos de Candido, defender o direito humano a uma literatura que, ao cultivar a interioridade, instrumentaliza o sujeito para agir no mundo com equanimidade e buscar a melhor versão de si mesmo.

Palavras-chave: Antonio Candido · Direito à literatura · Bhagavad-gītā · Alma e interioridade · Humanização

Referências

ROSENFELD, Anatol. O teatro épico. São Paulo: Perspectiva, 1985.

CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: Vários escritos. 4. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2004.

PRABHUPADA, A. C. Bhaktivedanta Swami. Bhagavad-gita como ele é. São Paulo: The Bhaktivedanta Book Trust, 2015.